Quais tipos de tratamento

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     Cada dependente químico estabelece uma relação diferente com a droga e cada dependente apresenta necessidades diferentes. Isso acontece porque a dependência química resulta da interação de vários aspectos da vida do indivíduo: biológico, psicológico e social. Desse modo, as intervenções devem ser diferenciadas para cada indivíduo e devem considerar todos os aspectos envolvidos. Não existe, assim, um tratamento único para a dependência química.  Na maior parte dos casos as técnicas usadas para o tratamento precisam ser constantemente reavaliadas durante o tratamento e adaptadas ao momento do paciente.

 

    A dependência química é uma doença que interfere em todos os aspectos da vida do paciente dependente. A interrupção do uso da droga é apenas um primeiro passo de um o processo de tratamento que pode durar em média de 1 a 5 anos. O tratamento do paciente dependente deve ser planejado buscando-se não somente interromper o uso da droga, mas visando a reinserção do paciente em novas atividades sociais, profissionais, familiares e a prevenção de recaídas. Como a dependência afeta vários aspectos da vida do paciente ela demanda uma abordagem multidisciplinar  por uma equipe composta ao menos por médicos, enfermeiros, psicólogos, neuropsicólogos, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e outros profissionais.  

 

    Pode-se dividir o tratamento dos dependentes pode ser dividido em cinco etapas de acordo com a fase de motivação para a mudança em que o paciente se encontra (tabela 1). As fases não são necessariamente seqüenciais, e os indivíduos usualmente passam por eles várias vezes durante o tratamento, em ordens aleatórias. A motivação para tratar sua doença varia no paciente com uma dependência. Pode-se encontrar o paciente dependente em uma de seis fases (Clementi, Prochasca, 1983)

 

Tabela 1 – Fases da motivação para mudança

Fase
Descrição
O que fazer
Pré-contemplação

O paciente dependente não percebe os malefícios e prejuízos relacionados ao uso da droga. 

Segue com seu uso e não planeja parar nos próximos seis meses

Convidar ao indivíduo à reflexão; evitar a confrontação, remover barreiras ao tratamento e propor medidas de controle do dano

Contemplação

O indivíduo percebe os problemas e prejuízos relacionados ao uso da droga, mas não toma nenhuma ação para interromper o uso da droga.

Pensa em parar de usar drogas nos próximos seis meses 

Discutir prós e contras do uso das drogas; ajudar o paciente dependente a perceber a incompatibilidade do uso de drogas e seus objetivos de vida

Preparação

O paciente dependente continua usando a droga, porém já fez ao menos uma tentativa de parar a droga, no último ano

Pensa em parar o uso da droga (abstinência) nos próximos 30 dias

Remover barreira ao tratamento e ajudar o paciente ativamente a se tratar. Deve-se demonstrar interesse e apoio a atitude do paciente dependente de se tratar

Ação

O paciente aceitou e conseguiu parar completamente o uso da droga durante ao menos seis meses

Implementar e ajustar o projeto terapêutico do paciente

Manutenção

O paciente mantem-se sem usar a droga por ao menos seis meses

Colaborar na construção de um novo estilo de vida mais responsável e autônomo

Recaída

O paciente dependente volta a consumir a droga

Reavaliar o estágio motivacional do paciente


 

1a etapa – Redução de danos

 

    O controle do dano é útil sobretudo quando o paciente está em fase de pré-contemplação e contemplação. Nestas fases, como o paciente dependente não aceita ajuda, os profissionais de saúde podem oferecer medidas de proteção que minimizem os danos causados pela droga, pela situação precária em que se encontram os pacientes. Esta atitude pode abrir portas e aproximar o paciente do sistema de saúde permitindo-lhe perceber que há possibilidades tratamento. 

 

2a etapa – Consulta motivacional

 

    Durante as etapas de contemplação e preparação o paciente dependente precisa encontrar suas próprias motivações internas para interromper o uso da droga. Nestas etapas o uso de uma técnica chamada consulta motivacional ajuda o paciente a sair da dúvida sobre os benefícios e malefícios do uso da droga e a se orientar em direção a uma decisão de interromper o uso. 

 

3a etapa – Tratamento de abstinência e construção de um projeto terapêutico

 

    Pacientes na fase de preparação e ação precisam ter acesso a serviços de saúde especializados que irão propiciar condições ideais para que o paciente possa realizar o tratamento de abstinência também conhecido como “desintoxicação”. As drogas causam importantes efeitos no cérebro e no organismo. A interrupção súbita do uso de algumas drogas pode causar efeitos e sensações desagradáveis. Quando da realização do tratamento de abstinência o paciente pode, por vezes, se tornar agitado, irritável e sentir um grande mal estar. O uso de um tratamento adequado permite ao paciente obter alívio e prevenir estas sensações desagradáveis, fazendo com que o início da abstinência seja menos sofrido. Para isto são necessárias equipes especializadas em abstinência e para alguns paciente leitos hospitalares que possam acolher, proteger e tratar estes pacientes. Durante esta etapa deve-se trabalhar com o paciente para que, a partir das suas motivações e objetivos de vida, se construir um projeto terapêutico e de reabilitação cognitiva e social.

 

4a etapa – Reabilitação cognitiva, social e prevenção de recaídas

 

    Uma vez realizada a abstinência, alguns pacientes dependentes que tiveram muitos prejuízos econômicos, sociais, pessoais ou neuropsicológicos, ou que se encontram em situação de marginalização, precisarão de um suporte para realizar a reabilitação cognitiva e social. 

 

    Este processo passa, por vezes, pela avaliação neuropsicológica para se avaliar problemas na concentração, memória, nas funções executivas ou outros aspectos que possam influenciar na tomada de decisões do paciente. Caso haja algum déficit um tratamento de reabilitação neuropsicológico pode ser indicado.

 

    A outra etapa é a preparação para o retorno a uma vida ativa, em sociedade e com a inserção de uma atividade profissional que possam ajudar o paciente a retomar a sua auto-estima e o convívio na sua comunidade. Esta etapa pode ser feita por uma equipe multidisciplinar ou com a ajuda de uma comunidade terapêutica de qualidade. Deve-se lembrar que quanto menos se separar o paciente dependente da sua família e da sua comunidade mais fácil e rápida será a sua reinserção. A instituição onde é feita esta etapa do tratamento deve ser capaz de estabelecer um vínculo com a família, com a comunidade e com os serviços de atenção a saúde próximos da morada do paciente. 

 

    A prevenção de recaída também é uma etapa importante para a manutenção da abstinência.  Esta etapa do tratamento tem como objetivo ajudar o paciente dependente a encontrar um novo estilo de vida e a aprender estratégias que o afastarão do uso de drogas e de possíveis recaídas.

 

    Além dos serviços de saúde pública e privada, associações como os Alcoólicos Anônimos, os Narcóticos Anônimos, comunidades terapêuticas e instituições religiosas também podem colaborar  para o tratamento dos pacientes com uma dependência. Cabe ao médico e a equipe multidisciplinar ajudar o paciente a se orientar aos tratamentos que possam ser mais eficazes para ele.