Álcool

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O álcool é a droga psicoativa mais utilizada no mundo. A substância responsável pelos seus efeitos é o etanol ou álcool etílico.  O álcool pode ser ingerido em bebidas como a cerveja, a vodca, a cachaça, o vinho e os outras  bebidas destiladas. A diferença entre as bebidas alcoólicas é o teor ou quantidade de álcool em cada uma delas.

Uma vez ingerido, o álcool é absorvido no intestino e entra na corrente sanguínea que o transporta até o cérebro. No cérebro, o álcool causa uma inibição dos neurônios produzindo os efeitos da embriaguez.

Quando alguém ingere álcool, o que ele sente?

Qualquer quantidade de álcool ingerido causa efeitos no organismo. Os efeitos imediatos dependem da quantidade ingerida e do teor de álcool no sangue. Um teor de:

  • 0,05% de álcool no sangue provoca uma alteração do pensamento, do senso crítico e da censura, que são diminuídos. O usuário fica desinibido, falante e autoconfiante.
  • 0,1%, os movimentos tornam-se perceptivelmente desajeitados
  • 0,2%, os movimentos ficam lentificados e começam a ficar descoordenados, e as partes do cérebro que controlam as emoções também são afetadas, o usuário pode chorar ou tornar-se agressivo
  • 0,3%, a pessoa fica confusa e sonolenta
  • 0,4 a 0,5%, entra em coma e perde a consciência

Em teores mais elevados que 0,5%, pode-se ter alteração da respiração, mudança da frequência cardíaca e a morte pode ocorrer por parada respiratória ou aspiração do vômito.

ATENÇÃO! A tolerância (habituação aos efeitos da droga) pode fazer com que as pessoas pareçam menos intoxicadas do que realmente estão.

Quais são os efeitos do álcool no organismo?

O uso prolongado de álcool pode causar dezenas de doenças, implicando todos os orgãos do corpo. Entre as mais graves estão o câncer, o infarto do miocárdio, as doenças cerebrais e do fígado. O uso repetido de álcool aumenta em 10 vezes o risco de se ter um câncer e está relacionado a 4% das mortes por câncer. Além disto o álcool potencializa o efeito de causar câncer de outras substâncias.  

Em usuários crônicos, é maior a ocorrência de câncer:

  • Mama (5%)  
  • Pancreático 2 a 5% (Alcohol drinking and pancreatic cancer risk: a meta-analysis of the dose-risk relation)
  • Trato digestivo alto (44% para homens e 25% para mulheres)
  • Colorretal (17% homens e 4% para mulheres)
  • Fígado (33% homens e 18% mulheres) (Excessive drinking can be a major risk factor for cancer: research underlines the need to reduce alcohol consumption levels in Europe) 
  • Fígado – cirrose = 70% dos casos, mais de 90% dos pacientes com câncer têm cirrose (O comportamento social pode levar a doenças hepáticas - Rute Eduviges Godinho; Bogliolo)

No coração o álcool aumenta o risco de infarto, causa aumento da pressão arterial (pressão alta), da frequência cardíaca e do consumo de oxigênio pelo músculo do coração. A longo prazo isto pode levar a uma doença grave do coração chamada miocardiopatia alcoólica.

O alcool é neurotóxico, ou seja agride e causa a morte dos neurônios. A longo prazo a morte dos neurônios pode levar a doenças cerebrais graves como demência alcoólica, a neuropatia alcoólica ou lesões graves como o derrame cerebral (Acidente Vascular Cerebral) e a síndrome de Wernicke-Korsakoff. Outros efeitos sobre o sistema nervoso central são a redução dos estágios do sono: sono REM (em que se sonha) e o do sono profundo. Além disso, está associado à interrupção freqüente do sono, tornando-o fragmentado, com longos e freqüentes episódios de despertar. Essas alterações prejudicam seriamente o usuário.

Os fígado e os intestinos também são prejudicados pelo álcool. Este pode levar ao acúmulo de gordura nas células do fígado (esteatose), a hepatite, à cirrose e ao câncer hepático. O álcool pode causar esofagite (inflamação do esôfago), gastrite (inflamação do estômago), acloridria (ausência de ácido clorídrico, essencial na digestão) e úlceras gástricas (destruição localizada da parede do estômago), varizes de esôfago (veias dilatadas e tortuosas no esôfago), sendo que sua ruptura é uma emergência médica que muitas vezes resulta em morte por hemorragia.

O álcool está relacionado ainda aos acidentes de trânsito, homicídios, suicídios, faltas ao trabalho e atos de violência.

Beber e tomar remédios é uma boa combinação?

Como o álcool tem efeito diurético, medicamentos que possuem eliminação pela urina tem sua eliminação acelerada, impedindo que permaneça no sangue num nível de concentração elevado o suficiente para exercer o seu efeito. Outro risco é sobrecarregar o organismo com a dupla tarefa de metabolizar (eliminar) remédios e bebidas, o que a longo prazo pode levar a problemas no fígado. 

Um dos maiores perigos é a mistura do etanol com drogas para tratamento de problemas neurológicos e psiquiátricos. Ele tem tolerância e dependência cruzada com barbitúricos e benzodiazepínicos. Além de causar inibição dos neurônios, pode potencializar a ação de certas substâncias, elevando o risco de perda da coordenação motora e mental. É conhecido também que a interação de alguns antibióticos com álcool pode provocar dor de cabeça, queda da pressão e até desmaios.

Álcool e nutrição

A má nutrição é comum em alcoolistas crônicos, tendo como suas causas gerais a nutrição inadequada, principalmente com falta de vitaminas em sua dieta, absorção de nutrientes reduzida, deficiências na utilização dos nutrientes, maiores exigências de nutrientes e predisposição genética para a deficiência de nutrientes. 

A deficiência de tiamina é encontrada em até 80% dos usuários de álcool. Essa vitamina (B1) é importante para o funcionamento do cérebro, do coração e dos músculos. Ajuda no metabolismo da glicose e sua falta causa lesões no cérebro que podem ser irreversíveis. A carência de tiamina pode levar a diferentes quadros clínicos, como a Síndrome de Wernicke-Korsakoff e o beriberi.  

A deficiência de ácido fólico, que ocorrem ematé 80% dos usuários de álcool, pode causar anemias, problemas digestivos, cansaço, dor de cabeça, insônia, fraqueza e problemas de crescimento. 

 

Os efeitos agudos do etanol (embriaguez) são devidos às alterações que o álcool induz na membrana dos neurônios e a um possível aumento do poder inibidor do GABA (ácido gama-aminobutírico) nas sinapses.

Efeitos comportamentais:

  • O álcool funciona como depressivo.
  • Em nível de 0,05% de álcool no sangue, o raciocínio, o julgamento e a sensura são afrouxados e, às vezes, perturbados
  • Em concentração de 0,1%, as ações motoras voluntárias tornam-se perceptivelmente desajeitadas
  • Com 0,2%, o funcionamento de toda a área motora é mensuravelmente deprimido, e as partes do cérebro que controlam o comportamento emocional também são afetadas
  • Com 0,3%, a pessoa fica confusa ou estuporada
  • Com 0,4 a 0,5%, entra em coma
  • Em níveis mais elevados, os centros primitivos do cérebro que controlam a respiração e a frequência cardíaca são afetados, e a morte ocorre após depressão respiratória direta ou aspiração de vômito

A tolerância pode fazer com que as pessoas pareçam menos intoxicadas do que realmente estão.


 

SISTEMA NERVOSO CENTRAL

  • Provoca fenômenos degenerativos nos neurônios do sistema nervoso central: encefalopatia crônica do alcoólatra, acompanhada de hipotrofia do encéfalo.

-Sono

  • Embora o álcool consumido à noite tenda a aumentar a facilidade para pegar no sono, também tem efeitos adversos sobre sua arquitetura:
  • Associa-se à redução do sono REM (estágio dos sonhos) e do sono profundo (estágio 4).
  • Associa-se à fragmentação do sono, com episódios mais frequentes e mais longos de despertar.


 

FÍGADO

  • Lesões nos hepatócitos, que são células do fígado
  • Modificações celulares dos hepatócitos: aumento do volume celular, com possível aumento da pressão portal (pressão na veia porta, que drena  sangue  do  sistema digestivo  e de suas glândulas associadas); necrose (morte) dos hepatócitos; fibrose hepática, que é a formação de excesso tecido conjuntivo fibroso no fígado, o que pode levar a diversas complicações; causa de esteatose hepática, que é o acúmulo anormal e reversível de  lipídeos  nos hepatócitos; degeneração hialina, que é o acúmulo de proteínas no interior das células.
  • Associação com o desenvolvimento de hepatite alcoólica e cirrose hepática

SISTEMA GASTROINTESTINAL

  • Desenvolvimento de esofagite, gastrite, acloridria e úlceras gástricas, varizes esofagianas (sendo que sua ruptura é uma emergência médica que muitas vezes resulta em morte por hemorragia)
  • Insuficiência e câncer pancreáticos, além de fenômenos degenerativos no pâncreas: pancreatite crônica calcificante
  • Interferência nos processos normais de digestão e absorção alimentar (como resultado, o alimento consumido é digerido de forma inadequada)
  • Desregulação do metabolismo de lipoproteínas e triglicerídeos
  • Parece inibir a capacidade do intestino de absorver vários nutrientes, como vitaminas e aminoácidos (o que, em associação maus hábitos alimentares, pode causar sérias deficiências vitamínicas, em especial do complexo B)


 

SISTEMA CARDIOVASCULAR

  • Maior risco de infarto do miocárdio e de doenças cerebrovasculares
    • Associação com o aumento da pressão arterial
  • Aumento da produção cardíaca em repouso, da frequência cardíaca e do consumo de oxigênio pelo miocárdio
  • Provoca fenômenos degenerativos no coração: cardiopatia alcoólica


 

CÂNCER

  • O efeito carcinogênico de muitas substâncias se torna aumentado pela intoxicação crônica com o etanol
  • Em alcoólatras crônicos, é maior a ocorrência de câncer do fígado, cabeça, pescoço, esôfago, estômago, pulmões, colo e intestino grosso.


 

MÚSCULOS ESQUELÉTICOS

  • Fraqueza muscular
  • O etanol provoca fenômenos degenerativos nos músculos esqueléticos


 

SISTEMA ENDÓCRINO

  • Aumento da concentração sanguínea de estradiol em mulheres
  • O metabolismo dos esteroides andrógenos também é afetado: há aumento da degradação da testosterona e da conversão para estrógenos e diminuição da síntese testicular de andrógenos
  • A intoxicação aguda está associada à hipoglicemia que, quando não reconhecida, pode ser responsável por algumas mortes súbitas
  • O metabolismo energético como um todo também se altera: o alcoólatra perde peso (ou não ganha, apesar de dieta adequada)


 

INTERAÇÕES MEDICAMENTOSAS

  • A interação entre o álcool e outras substâncias pode ser perigosa e até fatal
  • O etanol tem tolerância e dependência cruzada com barbitúricos e benzodiazepínicos


 

APARELHO PSÍQUICO

Transtornos relacionados ao álcool segundo o DSM-IV-TR:

Transtornos por uso de álcool:

  • Dependência de álcool
  • Abuso de álcool

Transtornos induzidos pelo álcool:

  • Intoxicação com álcool
  • Abstinência de álcool (Especificar se com perturbações da percepção)
  • Delirium  por intoxicação com álcool
  • Delirium  por abstinência de álcool
  • Demência persistente induzida pelo álcool
  • Transtorno amnéstico persistente induzido por álcool
  • Transtorno psicótico induzido por álcool, com delírios
  • Transtorno psicótico induzido por álcool, com alucinações
  • Transtorno do humor induzido por álcool
  • Transtorno de ansiedade induzido por álcool
  • Disfunção sexual induzida por álcool
  • Transtorno do sono induzido por álcool


 

OUTROS SISTEMAS

  • Pode afetar o sistema hematopoiético de forma adversa


 


 

Referências bibliográficas:

Brasileiro Filho, Geraldo, BOGLIOLO Patologia -7º edição - Rio de Janeiro:Guanabara Koogan, 2006. pp. 

Sadock, BJ; Sadock, AS. Kaplan & Sadock, Compêndio de Psiquiatria- 9 ed.- Porto Alegre: Artmed, 2007. pp. 430-433