Raiz alucinógena combate a fissura em drogas

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Extraído do Jornal O Tempo, PUBLICADO EM 04/09/16 - 03h00

Da raiz da iboga, um arbusto natural da África Ocidental, é extraída a ibogaína, opção promissora para o tratamento do vício em drogas e que já é usada em algumas clínicas de reabilitação no Brasil. Nos últimos testes feitos com 75 pacientes, 72% deles conseguiram manter a abstinência por períodos de até um ano, segundo o médico Bruno Rasmussen, um dos autores do trabalho publicado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “A ibogaína trouxe esperança. Há uma luz no fim do túnel da dependência. Essa história de que o vício seja um quadro progressivo, incurável e fatal talvez não seja verdade em todos os casos”, afirma.

Apesar de os resultados serem difíceis de se alcançar com as técnicas usadas até então contra a dependência química, a ibogaína não se trata de “milagre”, reforça o médico. “A substância facilita a psicoterapia, pois expande a consciência do paciente, que passa a entender melhor os problemas que está passando e o que tem que mudar. O paciente precisa se esforçar”, diz.

A ibogaína tem atuação direta sobre o cérebro, estimulando a produção do hormônio GDNF, que, por sua vez, intensifica as conexões entre os neurônios e promove um equilíbrio dos neurotransmissores, normalmente afetados pelas drogas. Como a substância tem propriedades alucinógenas, é como se o paciente vivesse uma experiência de transe durante o tratamento. Por isso, em janeiro deste ano, o Conselho Estadual de Políticas sobre Drogas de São Paulo tornou obrigatório que o método (com os princípios ativos derivados da Tabernanthe iboga) fosse realizado em ambiente hospitalar, com supervisão e controle médico.

Em nota, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirmou que a ibogaína não possui registro, não foi avaliada pelo órgão quanto a segurança e eficácia e, portanto, não pode ser comercializada no país. “A importação é possível para realização de pesquisa clínica”, diz o texto. A substância já é aprovada e usada no Canadá, na Nova Zelândia, no México e em países da América Central.

Reabilitação. No Brasil, um dos centros mais procurados que oferecem o serviço é o Instituto Brasileiro de Terapias Alternativas (IBTA), em Paulínia, no interior de São Paulo. O tratamento, aplicado há mais de dez anos, tem duração de cinco dias, dividido em cinco sessões. Cerca de 1.500 pessoas já receberam a medicação em cápsulas, associada a outras técnicas terapêuticas naturais para complementação de resultados.

“A ibogaína elimina a fissura que escraviza a pessoa no contexto químico, além de permitir ao paciente uma psicoterapia mais acelerada. A substância leva o usuário a acessar conteúdos da sua história de vida na forma de lembranças, sensações ou imagens, o que o faz ressignificar muita coisa e realinhar sua vida”, conta o professor de medicina tradicional chinesa e diretor do IBTA, Rogério Souza.

Para iniciar o tratamento, porém, o paciente deve estar há pelo menos quatro dias “limpo” (sem usar drogas), não pode ter problemas cardíacos nem esquizofrenia e nem sofrer de insuficiência renal ou hepática.

Futuro. Após os últimos experimentos feitos pela Unifesp em 2014, a pesquisa do médico Bruno Rasmussen ficou parada por falta de verbas. Seu novo protocolo prevê o aumento do estudo para contemplar 130 usuários de crack e cocaína. Na primeira parte, foram investigados pacientes viciados em álcool, cocaína, crack e maconha. “Estamos esperando financiamento. Com todo esse agito político, as pesquisa ficaram indefinidas, e estamos esperando a situação se acalmar para tentar conseguir verba para a segunda parte do teste”, diz. Outro estudos também testam a ibogaína no contexto da depressão e de doenças degenerativas do cérebro, como Alzheimer.

Tratamento também é considerado de risco

Mais do que a quantidade, a exposição prolongada às drogas não só prejudica o funcionamento do cérebro, como também provoca lesões em circuitos cerebrais ligados à recompensa e ao controle da impulsividade, e, assim, a dependência vai se instalando. Por isso, o tratamento com ibogaína ainda é avaliado como bastante controverso por alguns especialistas, devido aos efeitos arriscados da raiz.

A planta baixa muito a frequência cardíaca do usuário, o que pode ser fatal em casos de pacientes com algum problema do coração.

A ibogaína vem sendo alardeada como um tratamento eficaz para a dependência química, mas, segundo o professor adjunto de psiquiatria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Frederico Duarte Garcia, é uma droga alucinógena que “muda a química do cérebro”.

“Em alguns pacientes que têm predisposição à esquizofrenia, a ibogaína pode levar a desenvolver o problema, e isso é gravíssimo. Outra questão é que as pesquisas existentes não são confirmatórias de eficácia. O que se tem são relatos de quadros graves, de alucinações que duram alguns dias e que os pacientes depois se tornam esquizofrênicos. Recomendaria com muita parcimônia, pois é um tratamento em que os verdadeiros riscos aos pacientes ainda são desconhecidos”, explica.

Para Garcia, portanto, é bom colocar na balança, de forma bem consciente, os benefícios e os riscos do uso de entorpecentes. “Usar drogas é bom, mas tem riscos. Se quer correr riscos, pelo menos conheça e entenda o que de fato está disposto a encarar nessa loteria que é o uso”, afirma. (LM)

Depoimento

“Não tenho nojo de droga, apenas se tornou algo indiferente para mim”

“Como a ibogaína é um assunto novo e divergente, ainda existem muitas pessoas que criticam o tratamento que fiz, já que muitos ainda têm ‘pré-conceitos’ ou ainda a ignoram e desconhecem. Respeito suas opiniões, mas peço que respeitem minha posição. Outras elogiam minha coragem de me expor. Ressalto mais uma vez: é apenas uma ferramenta, não estou falando de cura! Mas foi minha última tentativa de sair da escravidão da fissura e da Síndrome da Abstinência Demorada (SAD). Bom, fui criada em uma família que achava o álcool normal, e eu gostava do ‘barato’ que ele causava. Mas, após o término do meu casamento, comecei a misturar bebidas com outras medicações. Por volta dos 30 anos, conheci uma pessoa, e ele me apresentou o crack, a droga que me fez perder o controle da vida. Nos cerca de oito anos de uso, foram duas internações, três tentativas de suicídio, três overdoses. Já estava ‘limpa’ há muito tempo, mas o desejo do uso não cessava, era uma luta diária, constante, que eu amenizava com várias medicações. Até que conheci a ibogaína. Durante muito tempo eu resisti. Tinha muito medo, pensava que era muito forte, que eu ficaria alucinada e poderia morrer. Fui analisando, vendo os pacientes se libertando, pois eu era terapeuta de uma clínica onde se aplicava a ibogaína. O desejo do uso da droga para mim era um monstro que me rodeava dia e noite, e aí decidi tomar. Hoje me sinto aliviada, não sinto mais vontade de cigarro, álcool, drogas nem de todos aqueles medicamentos. Como demorei tanto tempo para encontrar a ibogaína! Teria poupado tanto sofrimento! Não tenho nojo de droga, apenas se tornou indiferente para mim. Nem me lembro do gosto ou da sensação. Hoje sou feliz e me sinto livre; antes me sentia prisioneira de mim mesma.”

Luciana Vieira, 41, funcionária pública e ex-usuária de drogas

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