O CRR-UFMG acaba de publicar o relatório do Terceiro Censo de População de Rua de Belo Horizonte

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Foi publicado o relatório do Terceiro Censo de População em Situação de Rua e do Migrante de Belo Horizonte e ele pode ser obtido clicando aqui.

Este censo, uma parceria entre o CRR-UFMG e a Preferitura de Belo Horizonte inovou em relação aos dois censos anteriores, no seu aspecto metodológico e de aprofundamento em questões relativas ao cotidiano dessa população. Do ponto de vista metodológico, realizou-se a coleta de dados em apenas um dia, minimizando perdas e tornando a amostra o mais representativa possível. Este censo também aprofundou na avaliação quantitativa do percurso e cotidiano dos entrevistados.
    Foram identificadas 1.827 pessoas em situação de rua no município de Belo Horizonte, vivendo em calçadas, praças, baixios de viadutos, terrenos baldios, ou pernoitando em instituições – albergues, abrigos, casas de passagem e de apoio. Esse contingente equivale a 0,074% da população do município. A taxa de recusa dos entrevistados em responder o questionário foi de 15,8%, índice considerado baixo para este tipo de pesquisa. Esse resultado foi  atribuido, principalmente, a iniciativa de se envolver albumas pessoas em situação de rua, representantes do movimento nacional dessa população no processo de elaboração e validação dos instrumentos de coleta de dados, além da estratégia de divulgação e sensibilização prévia dos entrevistados sobre a coleta de dados.
    A pesquisa apontou que a população abordada era formada, predominantemente, por homens (86,8%) e a idade média da amostra foi de 39,6 ± 11 anos. Mais da metade dessa população (67%) situava-se na faixa etária compreendida entre 31 e 50 anos, indicando um envelhecimento da população em situação de rua, quando comparada aos censos anteriores. Nas extremidades da distribuição etária, as proporções encontradas foram relativamente menores (11,3% na faixa de 18 a 25 anos; e 9,9% na faixa de mais de 55 anos).
    No que tange à distribuição da população em situação de rua, por raça/cor, destaca-se que 79,5% dos entrevistados se declaram pardos (45,7%) ou negros (33,8%) e apenas 18,1% brancos. Esses dados, quando contrastados com os apresentados pelo Censo Demográfico de 2010, indicam que, entre as pessoas em situação de rua, a proporção de negros (pardos somados a pretos) é substancialmente maior do que a proporção encontrada na população geral (52%) de Belo Horizonte (pardos 41,9% e negros 10,1%).
    Quanto à presença de família na rua, apenas 5,9% dos entrevistados reportou viver com algum parente em sua companhia. Isso demarca uma tendência à redução de famílias na rua, visto que nos censos de 1998 e 2005 o relato de viver com algum familiar na rua foi de 24,8% e 13,6%, respectivamente.
    Quanto ao letramento, houve um aumento de 10,6% dos entrevistados que declararam saber ler e escrever e uma diminuição de 3,7% dos que são analfabetos desde o censo de 1998. Com relação à formação escolar, os dados coletados revelaram que a maior parte dos entrevistados (62,7%) concluiu pelo menos o primeiro grau.
    Dentre os motivos que teriam levado os entrevistados a viver e a morar na rua, os principais mencionados foram: problemas familiares (52,2%); o abuso de álcool e/ou drogas (43,9%); a falta de moradia (36,5%); e o desemprego (36%). Em torno de 76% dos entrevistados citaram, pelo menos, um desses quatro motivos, muitas vezes,de maneira correlacionada ou sugerindo uma relação causal entre eles.
    Os dados coletados evidenciaram a configuração de um novo perfil da população em situação de rua, distinto daquele presente na percepção do senso comum e do perfil tradicionalmente relatado pela literatura. Foi constatada, ainda, a existência de uma diferença significativa com relação aos dois censos anteriores. Observa-se que a população em situação de rua está envelhecendo e irá necessitar, cada vez mais, de acesso a serviços especializados na abordagem do idoso em situação de rua.