Euforia adulterada - Pesquisadores da UFMG identificam mudanças na composição do ecstasy consumido no Brasil

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Euforia adulterada

Pesquisadores da UFMG identificam mudanças na composição do ecstasy consumido no Brasil

Ana Rita Araújo

Amostras de ecstasy analisadas em laboratórios da UFMG e da Polícia Científica do Estado de São Paulo revelam que a droga ilícita apreendida no Brasil tem sua composição original adulterada. “Apenas 44,7% das amostras continham o princípio ativo 3,4-metilenodioximetanfetamina (MDMA) e, destas, só 22% eram puras”, resume o professor Rodrigo Resende, do Instituto de Ciências Biológicas (ICB). O percentual restante inclui até 20 substâncias ativas diferentes, entre as quais cafeína, piperazinas, anfetaminas e fenciclidina.

O resultado das análises e os métodos utilizados na pesquisa, que durou três anos, estão descritos em artigo científico assinado por Rodrigo Resende e pesquisadores de São Paulo, recém-publicado em revista internacional de ciência forense. O estudo demonstra “enorme mudança no padrão de tráfico de drogas sintéticas” no país e alerta para o aumento do risco de envenenamento de usuários. Segundo os pesquisadores, a grande variabilidade na composição dos comprimidos dificulta o diagnóstico e o tratamento dos pacientes que chegam a hospitais sob efeitos dessas substâncias. Resende adverte ainda que tanto o MDMA quanto as substâncias usadas na adulteração têm efeitos devastadores para o organismo. “Todos fazem mal igualmente. O ecstasy pode ocasionar parada cardíaca por efeitos secundários; tanto ele quanto o coquetel causam psicose, que pode levar à esquizofrenia.” A composição das preparações ilícitas pode variar significativamente de acordo com modo de síntese, métodos de purificação, matérias-primas, agentes e excipientes (substâncias complementares que possibilitam ao medicamento adquirir a devida forma e eficiência farmacêutica) empregados. A UFMG utilizou nas análises técnicas de cromatografia gasosa e de espectrometria de massa para detectar todos os compostos. O pesquisador explica que a polícia científica investe nesse tipo de estudo com o objetivo de rastrear a origem das drogas. “Mantemos há alguns anos colaboração com o pesquisador e perito criminal José Luiz da Costa, para obter o perfil de drogas apreendidas e catalogar a origem, o que facilita o rastreamento internacional”, comenta o professor da UFMG.

Consumo crescente

No artigo The Variability of Ecstasy Tablets Composition in Brazil, publicado no periódico Journal of Forensic Sciences, os pesquisadores informam que, ao longo das últimas décadas, tem havido “aumento notável no consumo de drogas sintéticas” e que, em muitos países europeus, estimulantes do tipo amina (ATS) são a segunda classe mais consumida, superados apenas pela maconha. O ecstasy é a ATS mais popular, sendo habitualmente vendido na forma de comprimidos, com grande variedade de cores, formas e tamanhos, em cujas cartelas há vários tipos de fotos e logotipos. “Nos últimos anos, o mercado para novas substâncias psicoativas que imitam os efeitos da MDMA aumentou rapidamente. Essas drogas sintéticas são comumente produzidas em laboratórios clandestinos e, muitas vezes, constituem-se de produtos químicos de origem desconhecida”, relata o artigo.

Rodrigo Resende informa que a composição adulterada dos comprimidos reúne substâncias psicoativas lícitas e ilícitas como anestésicos; anfetaminas que têm efeito em pessoas com déficit de atenção; piperazinas, usadas para atuar em receptores do organismo que dilatam a pupila, provocam sede e levam o usuário a parar de salivar; e fenciclidinas, classe de drogas dissociativas que causam alucinações e efeitos neurotóxicos. Conhecidas como pó de anjo ou poeira da lua, as fenciclidinas chegaram a ser usadas como agente anestésico. “A intenção é imitar os efeitos do MDMA”, comenta o pesquisador, lembrando que estudo realizado em 2011, em 16 países da União Europeia, revelou que a maioria dos comprimidos analisados não continha MDMA ou seus análogos.

Além da importância para a inteligência policial, a investigação sobre o conteúdo dos comprimidos de ecstasy também é importante para a área de toxicologia de emergência. “Houve situações em que pacientes relataram a utilização de um fármaco em particular, mas sintomas de intoxicação não foram coerentes com os relatórios”, destaca o texto. Nessa linha, Resende pretende desenvolver kit diagnóstico simples para detectar, por meio de amostra da saliva de pacientes, a composição de drogas ingeridas. “Quando uma pessoa chega ao hospital passando mal, é preciso detectar rapidamente o que ela consumiu para administrar um antídoto”, explica.

Para quem quizer baixar o artigo completo o link é:

http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/1556-4029.1258/abstract;jsessionid=C09D825C4F6ABA20542C0F6E36B42C41.f03t04


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